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Renato Araújo

Renato Araújo

D-escritor e Pesquisador de Joalheria e Arte Tradicional Africana

Renatex também se dedica a tradução de textos ligados ao seus campos de estudo, bem como mantém um canal no Youtube chamado “Raise Plow” – Área de Alagamento – onde apresenta traduções de músicas, documentários e filmes em línguas como o Inglês, o Francês, o Alemão, o Japonês, o Grego, o Bengali, o Hindi e algumas outras de seu interesse. Clique neste botão vermelho acima para saber mais.

O maior destaque que eu posso oferecer ao trabalho teórico de Renato refere-se a manutenção do selo editorial chamado Ferreavox, do qual ele é atualmente responsável. Criada coletivamente em 1997 como uma revista de filosofia e cultura aberta a publicação de textos de alunos da Universidade de São Paulo, a Ferreavox representa hoje um dos maiores arcabouços para aqueles que buscam, de forma totalmente gratuita, informações e reflexões especializadas sobre as contribuições africanas e afro-brasileiras na constituição de nosso país em seus mais diversos aspectos. A Ferreavox não possui patrocínio e nenhum vínculo institucional com editoras e empresas.

 

Renato Araújo da Silva, Araújo, Araujinho, Renatinho ou Renatex, como também é conhecido, nasceu em 1973 e graduou-se em filosofia em 2002 na Universidade de São Paulo (USP). Autor de inúmeras publicações e outras artes, sua produção inclui livros em poesia e prosa, como o Delectio Fornicationes (2017), She Said Yes Smiling; She Said no in Silence” (2017); análises filosóficas como a compilação intitulada “Temas de Introdução à Filosofia” (1991-2001); e a publicação de catálogos e artigos em periódicos científicos nacionais e internacionais, em especial ligados aos estudos de Arte Africana Tradicional e Cultura Afro Brasileira. Em sua formação educacional destaca-se o período em que Renatinho foi aluno de grego entre os anos de 1998 e 2002 do prof. Henrique Murachco no departamento de letras da Universidade de São Paulo. Esta convivência foi fundamental para Araujo, que assim a descreve:

Foi com Murachco que aprendi a crítica aos modelos gramaticais por seu excesso descritivo, historicista e formalista. Desde então, não só na língua, mas na vida, a influência filosófica de Henrique Murachco em minha vida se deu a partir de sua visão semântica, orgânica, lógica e funcional, tal como as aplicava no estudo da língua grega.” (Renato Araujo, 2016)

Em suas publicações afirma-se ligado à tradição libertária e à literatura de mau gosto desde 1989. Em muitos de seus textos, Renato adota o método literário praticado pela vanguarda surrealista do início do século XX, em especial o uso da escrita automática praticada por André Breton durante o movimento Dadaísta. Há cerca de 18 anos, Araujo tem dedicado a sua vida a tarefas capazes de articular experiências antropológicas, históricas, sociológicas, geográficas, filosóficas, linguísticas e literárias, econômicas e mitológicas no estudo de culturas africanas e afro-brasileiras. E em até certo grau, nas ciências exatas a partir de uma integração destes campos do saber. Tudo isto a partir de um modo filosófico, como ele mesmo adverte: “com liberdade e responsabilidade”.

 

Entre todas as atribuições possíveis, talvez a que melhor o descreva seja a de “d-escritor”. Segundo Renato:

 

 

Poucos têm uma noção correta disso, mas a vantagem em ser um “d-escritor” é que você tem a liberdade e responsabilidade completas para com a objetividade, para com o aprofundamento no humanismo e para com as saborosas ligações improváveis dentro de toda subjetividade possível, mas também é chamado a tergiversar, como se contasse estorinhas de aventuras para os netinhos”. (Renato Araujo)

Arte Africana – Palestra de Renato Araujo da Silva

Renato Araújo da Silva é bacharel em filosofia pela Universidade de São Paulo e trabalha atualmente como pesquisador no Museu Afro Brasil. Dentre outros trabalhos publicados, é coautor do livro África em Artes, disponível on-line. (http://www.museuafrobrasil.org.br/pes…). SILVA, Renato Araújo da; BEVILACQUA, J. R. S.; SALUM, M. H. L.. África em Artes . 1. ed. São Paulo: Museu Afro Brasil, 2015. v. 2000. 2000p . 56p.

Vídeo publicado em 02 de out de 2017 por NAPBrasilAfrica

Entre os principais títulos ligados aos temas africanos e afro-brasileiros estão:

Isto não é Magia; é Tecnologia: subsídios para o estudo da cultura material e das transferências tecnológicas africanas ‘num’ novo mundo (2013)

Publicado em 2013, este livro apresenta uma discussão sobre a temática da transmissão de tecnologias africanas para o Brasil e para as Américas. Ao analisar e propor algumas hipóteses quanto ao nível do aproveitamento destes saberes e outras técnicas durante o momento de implantação do colonialismo no país, Renato Araújo discute sobre a temática da transmissão de tecnologias africanas nas Américas utilizando-as como pano de fundo para a discussão filosófica a respeito dos fundamentos totalitaristas e patriarcalistas (de heranças ontogenéticas e primitivas) dos modelos de tecnologia assumidos historicamente pela humanidade.

Escritos Afro-Brasileiros (2016)

Publicado em 2016, este é o primeiro de dois volumes de uma coletânea de textos sobre a África, arte africana, arte afro-brasileira, joias, joalheria africana e outros itens escritos entre os anos de 2006 a 2016.

Segundo Renato, em trecho presente na epígrafe do livro:

“Esta coletânea não se trataria (…) de uma mera “coletânea’, nem mesmo de uma mera “seleção”, mas uma obrigação intelectual a qual me impus. O que desejei fazer aqui foi colocar minha “cara à tapa” e me descolar por fim de temas a respeito dos quais eu não sou absolutamente especializado e sob os quais ainda assim, teimosamente eu me debrucei, embora por inteiro e de todo verdadeiro, o fiz só porque ninguém ou muito poucos o fizeram. Se estudei um ou outro assunto “afro” foi ou bem por querer entrar momentaneamente para esta “política” ou bem por puro acaso, e de fato, quase sem querer, por isso os abandono todos nestes dois últimos volumes, excetuando meus trabalhos com joalheria africana e sua perspectiva na antropologia econômica. Ora, dos experts de plantão eu jamais li nada de sequer parecido com que escrevi nesta última década! Isso tudo me apresentou como uma espécie de dever, ou seja: ajudar a fazer parir no meio da rua, uma mulher que não é a sua esposa e que aliás, é alguém a quem você nunca viu, mas ainda assim, fará o parto dela por dever, mesmo estando muito longe de ser um verdadeiro obstetra… A certeza cruenta da escravidão, seus desdobramentos e seu grande e provavelmente insuperável hiato que empurra e separa os “seres” dos “projetos de seres”, os “cidadãos” dos “indigentes”, e a certeza de que mundos apartam os seres humanos de seus arremedos, além de minha própria consciência infeliz, talvez estes foram os meus únicos e desgraçados guias nesses Escritos.”

África em Artes (2015)

Publicado pelo Museu Afro Brasil, África em Artes foi escrito em parceria com a promissora professora Dra. Juliana Belavivacqua

 

Africa Em Artes by Francisco Neto on Scribd

Abaixo, confira matéria publicada na Revista Carta Capital por Ana Ferraz — publicado 17/05/2015 08h49

Livro reúne produção artística de 13 povos da África
No recém-lançado ‘África em Artes’, o estudioso Renato Araújo analisa 15 das cem obras do acervo do Museu Afro Brasil, a maioria adquiridas após o fim do período colonial, representativas de 13 povos

Quando o antropólogo alemão Leo Frobenius (1873-1938), há mais de 110 anos, descobriu na África cabeças de bronze que representavam os reis de Ifé – reinado que teria florescido entre os séculos XII e XV -, ficou emocionado e atônito. Tamanha era a sofisticação das esculturas, a rivalizar em beleza e perfeição com o que de melhor os gregos e romanos produziram, que o explorador teve certeza de estar diante de obras da mítica Atlântida.

Depois de mais de cem anos de reflexão sobre a arte africana, muito ainda há a ser descoberto. “Será ela uma forma de arte saída direto da religião como foi a arte grega? Serão estes objetos em sua maior parte relacionados à sua função prática?” Quem lança as perguntas é Renato Araújo da Silva, pesquisador do Museu Afro Brasil.

No recém-lançado África em Artes, escrito em parceria com Juliana Ribeiro da Silva Bevilacqua, o estudioso analisa 15 das cem obras do acervo do museu, a maioria adquiridas após o fim do período colonial (segunda metade do século XX), representativas de 13 povos.

O livro, resultado do prêmio Ideias Criativas, concedido pela Fundação Palmares, foi distribuído para professores de arte de escolas públicas. Seu conteúdo pode ser baixado gratuitamente a partir do portal do Museu Afro Brasil.

CartaCapital: Pode-se falar numa tradição artística africana?

Renato Araújo da Silva: Não existe uma “tradição artística africana” no sentido de haver uma tradição única identificável por seus critérios estéticos, organizados por uma escola, com seus cânones e tendências dos quais não se poderia fugir sem perder seu “lugar ao sol”, como ocorre com as “tradições artísticas das culturas europeias”.

Nunca será possível fazer uma definição única dessas tradições, uma vez que são elementos da cultura material de diferentes povos. Por exemplo, no Brasil, conhecemos bem mais a cultura dos Iorubá da Nigéria do que qualquer outro grupo. Isto é assim por terem sido um dos últimos grupos a serem tratados como escravos no País. Deste modo, sua memória está mais “fresca” em relação à de outros povos que acabaram por se entremear à própria cultura brasileira a ponto de não distinguirmos mais uma da outra.

Para ficarmos apenas com os conterrâneos dos Iorubá, só na Nigéria há mais de 400 grupos étnicos diferentes. Além disso, atualmente, são mais de 50 países que compõem a África. São cerca de 30 milhões de km², a população total atualmente supera 680 milhões de habitantes, que falam cerca de mil línguas e dialetos diferentes. Não temos, portanto, a menor ideia da diversidade deste continente e por isso quaisquer tentativas de definição destas formas de arte, sejam acadêmicas ou não, terão de reconhecer sua insuficiência e superficialidade.

Essas formas artísticas tradicionais foram e algumas ainda são produzidas com objetivos também diversos. Não foram feitas para serem dependuradas em museus (se estão nos museus é para que tenhamos dirimida parte de nossa própria curiosidade, que até certo ponto não tem nada a ver com as obras). E mais, algumas delas não foram feitas sequer para serem vistas. Eram afastadas do grupo e depositadas em locais sagrados ou enterradas. São estatuetas, máscaras, bancos, tecidos, vestimentas, objetos decorativos e do cotidiano, instrumentos musicais e religiosos, joias, entre outra infinidade de artefatos da cultura material dos povos africanos tradicionais que servem de elementos para essa, por assim dizer, “tradição artística africana”.

Recorte da Máscara Placa Nwantantay
Recorte da Máscara Placa Nwantantay, Povo Bwaba de Burkina Faso. Madeira (Henrique Luz/Divulgação)

 CC:  Qual foi o critério de seleção?

RAS: Juliana Ribeiro Bevilacqua e eu estudamos as artes tradicionais da África há mais de uma década. Para compor o livro África em Artes, selecionamos uma pequena parte de obras do Museu Afro Brasil. O acervo conta com mais de cem obras e escolhemos apenas 15 com o objetivo de oferecer uma pequena introdução aos diversos tipos de produção artística, especialmente de povos com os quais temos forte ligação histórica – são grupos de seres humanos que foram trazidos para o Brasil na condição de escravos, muitos deles com talento para o trabalho na madeira, no ferro, no ouro e em muitas outras atividades manuais e intelectuais que desenvolveram no Brasil ao longo dos quase 400 anos de escravidão.

O critério de seleção buscou dar ênfase aos tipos clássicos de objetos considerados nos estudos de arte africana, incluindo também algumas obras relacionadas à arte de corte e aristocrática, objetos estes relacionados comumente ao poder real ou das chefias africanas.

 CC: A maior parte dos objetos pertence ao século XX. Alguns ainda são usados pelos descendentes dos que os produziram?

RAS: Há no Museu Afro Brasil obras cujos usos e atividades ocorrem a pleno vapor, ainda que em localidades remotas e em algumas poucas aldeias que, à sua maneira, resistiram ao processo de destruição capitalista ou bem o assimilaram conduzindo suas tradições mais antigas a modelos turísticos de um lado e à reelaborações das suas formas de religiosidade para se adaptarem à onda da chamada modernização.

Cito como exemplo de permanência as máscaras de uma associação feminina iorubana da Nigéria chamada Gueledé, que sofreu adaptações incríveis. Em algumas delas os símbolos do poder feminino deram lugar a motocicletas e aviões, entre outros objetos “modernos”, a partir das décadas de 1960 e 1970. As máscaras Kanaga dos Dogon do Mali, igualmente, são exemplos de permanência, embora boa parte de suas cerimônias tenha sido comutada para espetáculos turísticos fracos, mas não menos importantes do ponto de vista dos estudos artísticos ou sociais.

Há também no Museu obras que caíram em desuso. Cito a máscara da associação ngbe do povo Ejagham da fronteira entre Nigéria e Camarões, usada em ritos funerários ou iniciáticos, ritos estes que foram tão modificados durante o processo de modernização que acabaram abolindo o uso da máscara no sentido tradicional, embora seja possível encontrar novos modelos deste tipo de máscara, outrora utilizada no contexto tradicional e hoje reelaborados apenas para suprir a demanda por souvenires.

Máscara Egungun
Máscara Egungun, Povo Iorubá da Nigéria. Madeira policromada (Henrique Luz/Divulgação)

CC: A função ritualística predomina?

RAS: Não sei dizer. Temos hoje já mais de cem anos de reflexões sobre o caráter da arte africana. Será ela uma forma de arte saída direto da religião como foi a arte grega? Serão estes objetos em sua maior parte relacionados à sua função prática ou, ao contrário, não se deveria ater às temáticas desta arte e às suas funções, mas apenas prestar atenção às suas formas plásticas, independentemente para o que estes objetos serviam ou servem? Poderíamos ao menos dizer que a sua função ritualística predomina? O que consideramos “ritual”?

Quando pergunto às crianças “o que vem a ser um ritual na nossa sociedade?”, elas jamais imaginam que formatura, aniversário, casamento, enterro, o hino nacional cantado no início de um jogo de futebol, a marcação do relógio de ponto das fábricas e dos “museus fábricas”, vernissages e aberturas, as filas das exposições-espetáculo também são formas de rituais.

Se em nossa sociedade, que tentou por todos os meios se desvincular dos modelos ritualísticos sem muito sucesso, o ritual ainda persiste, não há motivos para querermos tentar determinar a predominância de algum tipo de “ritual” em outras formas de sociabilidade se não combinarmos que estes rituais não sejam outros senão os nossos próprios, os rituais humanos – talvez até por isso, podemos supor que entre os humanos a função ritualística predomina, porque poucos passos são dados sem que algum tipo de ritual de algum modo nos influencie ou nos fundamente.

Na Grécia antiga e arcaica, fonte de onde boa parte da belíssima arte renascentista bebeu, a função ritualística certamente foi predominante. Esta não era uma questão para a Grécia arcaica, mas não deixa de ser nossa. Mesmo na era clássica grega, a representação de divindades e heróis “confundia” a arte e o mito – esta distinção é moderna. Neste mesmo sentido, ninguém discute a origem ritualística da arte teatral ou da herança religiosa nas obras de arte ocidentais.

Mas se no mundo moderno e pós-moderno relegamos as formas de arte religiosa para um campo próprio, isto tem mais a ver com os objetivos formais da tarefa modernista que com a arte mesma, já que se consegue perceber hoje que a transmutação dos ritos sociais compõe grande parte da materialidade e das temáticas dos objetos artísticos, mesmo considerando seus valores profanos e ditos “ocidentais”.

Com relação às arte africanas, embora tenham critérios próprios, incluem aspectos ritualísticos, mas também puramente estéticos. Uma joia de uso ornamental, bonecas, implementos agrícolas, pinturas rupestres, bancos ou objetos de uso cotidiano como colheres, jarros, copos e portas decorativas certamente compõem grande parte da chamada “arte africana”, mas não fazem necessariamente parte da classificação de objetos com “função ritualística”.

Essa teimosia fez parte do modelo de dominação dos povos não europeus pelos europeus, que precisaram dar ênfase e centralidade à sua cultura e ao seu próprio fazer artístico.

Cachimbo
Cachimbo, Povo Bamileque dos Camarões. Cerâmica (Henrique Luz/Divulgação)

CC: Muitas das máscaras são usadas fora do rosto e podem incluir vestimentas.

RAS: Uma máscara tradicional africana não é apenas aquilo que os museus conseguiram preservar – geralmente a parte de madeira. Por definição, as máscaras, enquanto intermediárias entre quem mostra e o que se quer mostrar (ou elaborar), não podem se restringir nem a apenas um dos materiais dispostos nelas nem ao local no corpo onde podem ser colocadas.

De pronto, pode-se identificar inúmeros lugares em que dispor aquilo que os museus ocidentais chamam de “máscara”, ou seja, a parte preservada, geralmente de madeira. Além do rosto, pode-se colocá-la na cabeça ou acima dela, prendendo-a em outras partes do corpo, pode-se também utilizá-la como uma espécie de capacete e algumas máscaras menores podem ser colocadas apenas na testa, ou ainda serem utilizadas na altura da cintura, amarradas ou não a um cinto. Não há uma convenção geral, cada povo tem sua própria maneira de portar as máscaras e cada tipo de máscara possui meios distintos de posicionamento.

A máscara pode ser considerada um objeto “multimídia”, pois não é só a parte destinada ao rosto que deve ser chamada de máscara e sim todo o conjunto que engloba muitas vezes elementos que não duram muito tempo e por isso os museus não têm como conservá-los, caso das vestimentas usadas pelo mascarado, a pintura corporal, ornamentos feitos de fibras vegetais, adornos, a gestualidade do mascarado, etc.

Estatueta
Estatueta, Povo Attie da Costa do Marfim. Madeira, Tecido, Contas e Fibra Vegetal (Henrique Luz/Divulgação)

CC: O que distingue este livro?

RAS: A ausência de obras em português sobre arte tradicional da África torna este pequeno livro fundamental. Segundo o British Council, apenas 5% da população brasileira fala inglês, a principal língua na qual são publicados estudos e catálogos sobre arte africana. A produção artística africana não pode ser elitista. Trata-se de um dos maiores legados que as tradições da África deixaram para toda a humanidade e está intimamente ligada ao surgimento do modernismo europeu.

É triste que iniciativas como estas ainda sejam raras no país, mas sendo sua distribuição gratuita isso passa a ser um ótimo ponto de apoio no alcance desta difusão. E as próprias obras podem ser observadas no Museu Afro Brasil (Parque Ibirapuera, Portão 10, São Paulo, de terça a domingo, das 10h00 às 17h00).

 Fonte: https://www.cartacapital.com.br/cultura/livro-reune-producao-artistica-de-13-povos-da-africa-3817.html

 

Arte Afro-Brasileira: Altos e Baixos de um Conceito (2016)

Publicado pela Ferreavox em 2016, este é, sem dúvida, um dos mais impactantes textos sobre a arte brasileira já escrito. Extremamente perspicaz, pontiagudo e nem por isso menos denso, Arte Afro-Brasileira: Altos e Baixos de um Conceito trata, basicamente da cooptação de obras e artistas negros e outros com temáticas relacionadas às culturas afro-atlânticas e a “invenção” da arte afro-brasileira como uma forma de garantia de mais uma entre as que ele nomeia como “ondas de valorização institucionais do negro”. Haveria, segundo Renato, 4 grandes ondas de valorização, todas interligadas entre si. De forma ambígua, essas ondas permitiram a visibilidade dos negros artistas nas artes e ao mesmo tempo tem desde sempre fomentado a sua indesejável reclusão.
Neste livro, Araujo não trata do protagonismo negro em si mesmo e nem especificamente das tentativas frustradas ou não do movimento negro de incluir a questão artística nas suas pautas. Isto é, o autor não enfatiza o ativismo negro que perturbou a estabilidade das cercas das artes, mas dedica-se aos momentos e motivos pelos quais essas mesmas “cercas” diminuíram suas resistências. A arte afro brasileira seria, portanto, uma “invenção” dos “padrões de cooptação de elite negra voltada às artes” que ficariam presas num impasse insolúvel que as apartaria de sua ascendência nobre (artistas do barroco e neoclássico – tanto na música quanto nas artes plásticas – fundamento das artes no Brasil, portanto referência fundamental da arte brasileira, não capitulo, não vertente, mas “A Arte Brasileira”, sem qualificativos porque nevralgicamente “afro”) e a manteria em sua dependência estatal, hoje representada também pelas grandes corporações, bancos e financiadores de uma certa “curanderia”(SIC) “falsos curandeiros que se passam por verdadeiros ‘curadores’ só por causa da cor negra de sua pele e principalmente por sua vontade de potência carreirista, seu desejo de ‘pôr no currículo’, de ‘estar no mercado’ etc. O desafio do artista identificado como afro-brasileiro seria, então, “cuidar de seu jardim e mesmo assim ser universal”; fazer arte afro-brasileira e ser cosmopolita. Mas como fazer isso? A pesquisa de fôlego de Renato Araujo não oferece muitas respostas, porém nos oferece um impressionante caminho para fugir de muitas outras armadilhas.
O que nos surge como esperança é compreender a “arte independente afro-brasileira” livre de racialismos biológicos, ainda que os apresente em termos políticos. Essa arte seria dessa maneira uma forma de resistência política e também cultural, já que foi o racismo também que relegou os aspectos culturais africanos, sua estética, sua materialidade à planos subalternos. E a apresentação desses planos subalternos no âmbito de prestígio das artes de fôlego, resistência e honra a esse modelo cultural.

As duas grandes referências para a escrita deste livro foram os professores e pesquisadores Marta Heloísa Leuba Salum, a Lisy, com quem Renato estabeleceu uma profunda relação de amizade para além de sua condição de orientando por cerca de 18 anos, entre os anos 1999-2017 e o professor antropólogo Dr. Kabengele Munanga, especialista em antropologia da população afro- brasileira onde estabeleceu importantes pesquisas em torno do tema do racismo na sociedade brasileira.