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Lembrança de Nhô Tim

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”

                                                  John Donne (1572-1631) – Meditações VII-tradução livre

 

‘Nenhum homem é uma ilha’ se tornou certamente, para alguns otimistas um ditado popular. Para outros, um frágil clichê. No entanto, em um período da história marcado por tão siginificativas  mudanças, o poeta inglês John Donne foi capaz de estabelecer uma imagem notável. Dentre as inúmeras possibilidades somos impusionados a pensar o isolamento como dupla ação de esquecimento. Aos que ficam no continente resta imaginar a semeadura no mar. Já ao torrão a ‘deriva’, cabe seguir adiante sobre um passado em constante mutação. A história aqui, portanto, nos apresenta como um espaço de tensão entre o sentimento de pertencimento e o seu reconhecimento. Ainda que inaudível para aqueles que se foram, a perpétua ação dos sinos oferece uma esperança de coesão, talvez, mais para os que ficam do que para aqueles que se foram.

Adiante este cenário de desafios marítimos, as profundas descobertas; a intensa mercantilização e as expansões territoriais iriam transformar não apenas a geografia do mundo, mas uma gama infinita de relações. É aproximadamente entre os anos de 1750 e 1770, quando Inglaterra se consolidava como potência econômica devido a sua recente industrialização, que a capitania de Minas Gerais atingiu o seu apogeu enquanto fonte de extração de ouro e diamantes. As relações entre Inglaterra e Portugal ao longo destes  séculos protagonizaria o regimento de complexos sistemas de exploração na vida colonial: tratados econômicos1; comércio de escravos, deslocamento abundante de imigrantes europeus e um fluxo intenso para o interior da colônia, entre outros (COSTA e MENEZES, 2012). Ainda que mantenedora de uma forte base escravista, diferentemente da sociedade açucareira, a mineração estabeleceu fortes laços com o comportamento urbano. Esta flexibilidade da sociedade mineradora, capaz de aglutinar certa heterogeinidade de intelectuais, artistas, latifundiários, comerciantes, biscateiros, permitiu que em meados do século XVIII os escravos oriundos de diversas populações africanas ainda representassem mais da metade da população mineira.

Com o advento da abolição da escravatura em 1888, a aparente liberdade oferecida pela transição do regime colonial para o regime capitalista ofereceu as populações negras que habitavam Minas Gerais, em sua grande maioria, o vazio. As condições desumanas de trabalho nas minas para extração das riquezas minerais tinham a sua disponibilidade uma enorme população sem renda, organizada em quilombos ou dispersas por entre as recentes periferias dos centros urbanos. Com a decadência da mineração, devido a paralisação de descobertas de fontes e ineficiência tecnológica para a extração do ouro presente em rochas matrizes muito duras, fez renascer a economia agrícula inicialmente marcada pela diversificação rural (PAIVA, 2001).

A origem do município de Igarapé liga-se à passagem da bandeira chefiada por Fernão Dias e Manoel Borba Gato pela região. Atraídos pela abundância de terras virgens, decidiram fixar residência no  local. Assim, por volta de 1710, deu-se início ao povoado. Uma lenda muito conhecida na região diz que a “Mãe do Ouro” aparece por vezes na serra do “Farofa” como uma grande bola dourada que surge da terra e sobe, irradiando luz, para lembrar os escravos assassinados após esconderem, a  mando de bandeirantes, o ouro por eles encontrado em suas expedições.2

 

Tiago Gualberto

 

 

1
Um exemplo é o Tratado de Methuem (Tratado de Panos e Vinhos)  ocorrido após a descoberta das primeiras grandes jazidas de ouro em Minas Gerais. Neste tratado, assinado em 1703, Portugal é obrigado a adquirir os tecidos da Inglaterra e por sua vez, essa os vinhos Portugues. Esse acordo seria crucial para o estabelecimento das relações comerciais entre o domínio econômico inglês e a coroa portuguesa (COSTA e MENEZES, 2012).

2     IBGE- 2010. Disponível em http://cod.ibge.gov.br/16YA  Acessado em 24/08/2014

MARQUESE, Rafael de Bivar. A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX. Novos estud. – CEBRAP, São Paulo , n. 74,Mar. 2006 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010 33002006000100007&lng=en&nrm=iso>. Acessado em 08/07/2014

MENEZES, Sezinando Luiz; COSTA, Célio Juvenal da. Considerações em torno da origem de uma verdade historiográfica: o Tratado de Methuen (1703), a destruição da produção manufatureira em Portugal, e o ouro do Brasil. Acta Scientiarum. Education, Maringá, v. 34, n. 02,dic. 2012 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2178-52012012000200006&lng=es&nrm=iso>.Acesssado em 12/09/2014.

PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na colônia: Minas Gerais, 1716-1789. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001, 285 p.