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A Lembrança de Nhô Tim trata-se de um processo de articulações entre a comunidade residente no bairro Resplendor na cidade de Igarapé, a poucos quilômetros do centro de arte contemporânea Inhotim.

Durante o inverno, esta pequena área de cerrado e antiga pastagem é sempre ameaçada por queimadas devido, sobretudo, aos baixos índices de umidade peculiares da estação. Outra característica desta área marcada pela presença da BR381 é o intenso tráfego de caminhões, capazes de dispersar ainda mais a fina poeira do minério extraído das serras do entorno. Com isso a paisagem nestes percursos mantém-se coberta por graduais e densas películas de poeira vermelha.

De acordo com o Centro Inhotim de Memória e Patrimônio (CIMP) criado em 2008, as várias possibilidades de origem do nome do instituto estariam relacionadas a corruptelas de nomeação, por parte dos moradores locais, do nome do antigo proprietário das terras onde se localiza atualmente o parque. Este minerador de origem inglesa, o ‘Sir Timothy’ ou ‘Sr. Tim’, poderia ter gerado o apelido ‘Nhô Tim’. Como também, de acordo com a pesquisa do CIMP*:

“Há ainda o relato da viagem do engenheiro inglês James Wells pelo Brasil entre os anos de 1868 e 1886. Em determinado momento, ele relembra uma conversa com um trabalhador negro em uma estrada próxima à Brumadinho. O linguajar local indica que a palavra Inhotim poderia ser uma corruptela da expressão usada pelos escravos para dizer sim senhor: “N’hor sim”. A existência de seis comunidades quilombolas no município de Brumadinho, quatro delas reconhecidas pela Fundação Palmares, reforça a hipótese.”

Nesta região é costume adicionar um pouco da terra de “formigueiro” ou terra vermelha, rica em minério, à massa de cimento. Assim além de resistência, qualquer economia do concreto cinza equivale a grande valia para estas populações que passam toda a vida no árduo processo de construção de suas casas. Muitas vezes a cor da terra se confunde com a das casas, seus materiais de constituição e com a vegetação coberta pela poeira.

A ação ‘Lembrança de Nhô Tim’ compreende, inicialmente, a elaboração de uma receita de produção de uma série de pequenos objetos. Sua constituição é simples. Uma massa composta por uma porção de minério, água e cimento. O formato desta pequena lembrança assemelha-se ao chup-chup, um popular sorvete caseiro produzido a partir de um característico saco plástico. Ao adcionar esta massa vermelha terrosa no interior do recipiente plástico, obtém-se após a secagem em varais, um rígido rolinho. Retirado o saco plástico que o formatou, verificam-se pequenas manchas rosas e matizes leitosas que  intensificam a seu aspecto opaco. Ao contrário da cor cinza, tão peculiar ao concreto, vê-se a contaminação pigmentar do minério sobre a substância. A luz é então absorvida pela superfície fosca, apesar de sua aparência lisa fruto da impressão detalhada do plástico sobre a massa ainda úmida. Sem a cobertura do plástico, o que antes era interior flexível mostra-se de forma maciça e inerte ao exterior. O seu formato delgado apresenta, ao longo de sua dimensão, duas extremidades. De um lado estão duplas pontas referentes ao design do plástico tradicionalmente utilizado. Se fossem verdadeiros chup-chups estas arestas seriam alvo de furos e posterior sucção de seu conteúdo ao passo do degelo. Na outra extremidade observa-se pequenas dobras rugosas, provenientes da memória, impigida pelo plástico, do ato de amarrá-lo com o objetivo de contenção do seu recheio. A anterior maleabilidade do concreto agora se mostra oposta por meio das pequenas fissuras, bolhas e registros do lento evaporar da água utilizada em sua fabricação. Esta densidade do pó concretizada através da reação entre os elementos da receita é mais facilmente percebida pela manipulação da lembrança. Sua adequação às mãos torna ainda mais perceptível sua dureza, sua carga compacta e sua fragilidade a queda. O congelamento artificial, resultante da secagem da mistura do cimento e minério adciona ao objeto imobilidade e um grau de esterilidade pertubadoras das expectativas que se projetam sobre a forma e os tradicionais usos tanto do chup-chup quanto da terra vermelha e do cimento.

A articulação de saberes populares, seja o saber simples de elaborar o sorvete caseiro, instaurado como fonte de renda e a sua transmissão por entre as vizinhanças e as suas diferentes receitas, seja a receita de uso da terra como uma estratégia de aceleração do sonho de ter uma casa, constituem princípios fundamentais da criação deste objeto que intitulo “Lembrança de Nhô Tim”.

 

Tiago Gualberto

* Informação disponível no site do intituto Inhotim: http://www.inhotim.org.br/blog/origem-nome-inhotim/ acessado em  1 de julho de 2014.